Femme Fatale

Agosto 1, 2010

“Só então ela se dá conta de que os raios solares já invadem a janela de forma atrevida e só então percebe estar deitada em uma cama sabe-se lá pertencente a quem. Roupas e garrafas atiradas por todos os cantos, fora daquele quarto o vento uiva ferozmente. A noite foi exatamente mais uma amostra do que costuma conduzi-la à loucura. Tentativas frustradas de preencher seu vazio, resquícios antigos de outros carnavais (um em especial) que sempre têm fim. Uma garota insaciável e imprevisível, despreocupada com a conduta social, com moralismos ou qualquer coisa do tipo. Olha para o lado e se depara com um indivíduo beirando seus tatuados e cabeludos trinta anos, dormindo como uma criança. Ele não sabe quem é o cara, muito menos como foi parar ali. Mas imagina com o um tiro certeiro o que aconteceu depois de sair daquele seu velho conhecido barzinho underground. Avessa aos sentimentalismos comuns, a mulher caleidoscópio apenas vive para o momento. Veste as roupas antes que o imbecil acorde e perceba sua presença, peça seu telefone e recorde a madrugada atordoada e alucinada que passaram. Acostumada com a peregrinação nada santa por entre corações (uma genuína lady heartbraker) e corpos estranhos – buscando algo que nunca encontrará – ela corre, sem saber aonde vai chegar.”

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Mãe ou não mãe

Junho 15, 2010

“Desde que escrevi pela última vez, andei revirando meu sótão mental a ver se encontrava minhas ressalvas originais à maternidade. Lembro-me, sim, de uma montoeira de medos, todos do tipo errado. Caso eu tivesse enumerado as desvantagens da procriação, ”filho pode acabar sendo assassino”  jamais teria aparecido na lista. Na verdade, ela teria sido algo mais ou menos assim:

1. Pentelhação.

2. Menos tempo só para nós dois. (Que tal nenhum tempo só para nós dois?)

3. Os outros. (Reunião de Pais e Mestres. Professores de balé. Os amigos insuportáveis das crianças e seus insuportáveis pais.)

4. Virar uma vaca gorda.

5.  Altruísmo artificial: ser forçada a tomar decisões segundo o que é melhor para uma outra pessoa.

6. Redução das minhas viagens.

7. Tédio enlouquecedor. (Eu achava que criança pequena era uma chatisse inominável.)

8. Vida social imprestável. (Nunca consegui ter uma conversa decente na presença de crianças de cinco anos na sala.)

9. Rebaixamento social. (Eu era uma empresária respeitada. Assim que aparecesse com uma criança a tiracolo, deixariam de me levar tão a sério.)

10. Arcar com as consequências. (Procriar é saldar uma dívida. Mas quem quer saldar uma dívida da qual se pode escapar? Tudo indica que as mulheres sem filhos escapam impune e furtivamente. Além do mais, de que adianta pagar uma dívida para o credor errado? Só a mais desalmada das mães poderia se sentir recompensada da trabalheira ao ver a própria filha levando finalmente uma vida tão horrenda quanto a sua.)

Obviamente os motivos para continuar estéril eram todos incômodos tolos, sacrifícios insignificantes. Eram razões egoístas, maldosas e mesquinhas, de sorte que qualquer mulher que compilasse uma tal lista e optasse por manter sua vidinha arrumada, sufocante, estática, ressequida, sem saída e sem família era não apenas míope como também pavorosa. (…)”

página 38 e 39

“Portanto, meu receio não era apenas de virar mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionária que fornece a plataforma para a decolagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta – desmazelada, meio gorda – que acena adeuses e manda beijos enquanto uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com o babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído. Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada. (…)

Franklin, eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho. Antes de engravidar, minha visão do que significava criar uma criança – ler histórias sobre trens e casinhas com um sorriso no rosto, hora de dormir, enfiar papinha em bocas escancaradas – parecia ser a de outra pessoa. Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com o meu próprio egoísmo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o ”virar da página”, sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia. E creio que foi esse o terror que talvez tenha me atraído, da mesma  forma como um parapeito nos tenta a dar o salto. A intransponibilidade da tarefa, sua falta absoluta de atrativos, foi o que, no fim, me seduziu.”

página 45

Trechos retirados do livro Precisamos Falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver.

CALA BOCA GALVÃO – A piada de um país inteiro

Junho 12, 2010

Quem já viu ao menos uma vez uma transmissão esportiva da Rede Globo comentada pelo caríssimo Galvão Bueno deve concordar que por vezes ele fala umas bobagens e faz uns comentários pra lá de idiotas, imbecis e desnecessários, por isso os twitteiros do Brasil nessa copa pedem: CALA BOCA GALVÃO!

A brincadeira dos twitteiros acabou tomando grandes proporções chegando a liderar não só os trending topic’s do Brasil, mas também o de cidades como Seattle, NY, Dallas e assim alcançando um lugar cativo no TT mundial. Os ‘gringos’ vendo CALA BOCA GALVÃO em primeiro no TT worldwide começaram, curiosos, indagar ‘who is cala boca galvão?’. Foi a partir daí que a bagunça começou e o mundo caiu na piada brasileira. Ao responder a pergunta vinda da gringa, alguns disseram que se tratava da nova música da Lady Gaga e posteriormente que Galvão era um pássaro raro em extinção e que ao twittar ‘cala boca galvão’ 10 centavos seriam doados a fundação e ajudaria na preservação do pássaro. O fato é que uma mentira tão absurda acabou pegando no mundo, muitos foram os que ficaram perdidos sem saber se era uma música ou uma ave, alguns estrangeiros chegaram até a perguntar se a ave era saborosa. E é essa a história da maior piada interna de todos os tempos.

 Agora, reflita, se todos nós, brasileiros, nos empenhássemos e fizéssemos a mesma mobilização que foi feita por uma piada em uma coisa que realmente fosse de proveito para nossa melhoria o que nós não conseguiríamos? Uma coisa é verdade, somos criativos e temos força, mas quando se trata de coisa séria não seriamos nós acomodados demais?! – ta f*dido, deixa f*der.

Veja também:

Fórum da lady gaga

Média kings

Vídeo galvão

Mais vícios e menos virtudes

Maio 24, 2010

”Preciso que algo aconteça aqui. Desesperadamente! Tenho pressa! Nem tente me distrair!  Tempo de colocar certas vontades para fora. Dar chance ao acaso. Rumo ao inesperado!  É preciso repetição, mas que tal algo novo agora? Livre de qualquer padrão, regra, educação e rima. Quero surpresa, erro, ar e vida! Mais vícios e menos virtudes. Quero me machucar (assim quem sabe algo mude)!  Além de todo modelo a seguir e expectativas de ser alguém feliz, que chegou lá, existe alternativa? Pois os velhos sonhos e causas não serão nada mais que isso se depender de minha iniciativa. Não tenho o que é preciso! Além da vida o que perder? Prefiro ser o provocador que após as dez horas da noite grita sem respeito ou pudor. Ser o franco-atirador de toda vontade mais reprimida!”

Think Twice!

Maio 24, 2010

(Clique no quadro verde)

Antes de reclamar pelos caprichos que você não tem, pense quantas pessoas não dariam tudo pra estar no seu lugar.

Eu sei que às vezes pode ser difícil, mas não custa tentar.

Rua Silveiro

Maio 24, 2010

Capítulo 3. Me dou conta de que se eu não soubesse sobre o que eu estou escrevendo já estaria completamente perdida. Anyway…

Drunk drivin’ começou a soar, olhei para o relógio de cabeceira, 6:00 a.m. de domingo. Animadamente me levantei, liguei a TV em uma rádio qualquer, fui ao banheiro, tomei um banho. Desci para comer um sanduíche, voltei ao quarto e então notei o nervosismo pré-prova chegando, precisava relaxar. Mudei para uma rádio de reggae, dancei em frente ao espelho por uns minutos, dando vazão a alegria e tranquilidade que senti. Abri a janela e olhei ao redor, só o que eu enxergava eram prédios. Conferi minha bolsa mais uma vez. Lapiseira, canetas, identidade, tudo certo, era hora de ir.

Optei por ir andando, com passos um tanto quanto apressados, fui andando pelas ruas atenciosamente. Quando dobrei a esquina que dava acesso ao lugar me deparei com um monte de pessoas, parecia que todo mundo conhecia alguém ali, me encostei timidamente em uma mureta. Prestes a ligar meu mp4 uma mulher começou a conversar comigo, ficamos ali uns dez minutos até os portões serem abertos, então cada uma seguiu para sua sala.

Sentei na primeira carteira ao lado da porta. Lugar estratégico, não precisava passar por muitas pessoas para chegar nele. Bom, os minutos que antecedem o início de uma prova são quando o tempo mais demora pra passar. Cada rosto que você olha um semblante diferente – tranquilos, confiantes, a beira de um ataque, ansiosos; eu fazia parte dos impacientes. Todas as vezes que passei por isso meus pensamentos foram parecidos. Olhava as pessoas batendo canetas na carteira, conferindo mil vezes seus pertences, organizando diversas vezes aquelas poucas coisas – lápis, caneta, borracha, identidade, água. O silêncio pairava. Fiquei pensando: todos ali pelo mesmo objetivo. Começava a imaginar quanto tempo cada um teria ficado estudando, ou, quantos daquela sala estariam entre os aprovados.

O sinal que autorizava virar as provas e começar tocou. A partir daí não me recordo muita coisa além de ter me desconcentrado muitas vezes com pensamentos aleatórios. Fui uma das primeiras a sair da sala, afinal minhas chances estavam praticamente zeradas, me restava apenas aproveitar o tempo fora daquilo. Voltei ao hotel, desta vez mais calmamente, foi então que notei quão boa era a sensação de passar em uma rua arborizada, no meio de tanto movimento e concreto um lugar tranquilo, praticamente um oásis, que ficava ao lado de um shopping.

Cheguei ao hotel lá pelo meio dia e logo peguei um táxi, para onde? Bem, rua Silveiro, novamente. A rotina da semana estava sendo estabelecida. Provas, hotel, casa dos outros, hotel e mais provas. Apesar de parecer que meus dias se repetiam sempre havia um elemento novo a cada amanhecer, a cada entardecer – e mesmo que tivessem sido exatamente iguais, isso não me incomodaria, afinal a companhia das minhas tardes era a melhor possível e para mim isso bastava.

Naquele mesmo dia, cheguei à casa praticamente na hora do almoço. Depois da refeição – que estava muito boa por sinal – todos se levantaram, exceto eu, que continuei à mesa. Por uns instantes¹ na cozinha só havia eu e aquela mulher, aquela mãe. Conversamos um pouco até a filha mais velha se juntar a nós e foi então que através de fotos fizemos uma viagem ao tempo. Elas lembravam – eu conhecia – o passado da família, as histórias engraçadas de infância e de ação, como a ‘Noiva do Rambo’.

Mais tarde eu e a menina bela vimos TV, por vezes ouvia música e foi escutando o som vindo do meu mp4 que comecei a pensar em toda a minha expectativa para fazer  aquela viagem, em todas as tardes que haviamos passado longe mas ao mesmo tempo juntas, em todas as vezes que eu era recebida com um ‘estava pensando em você’ ou com um oi animado, nas vezes que quis um abraço… Foi guiada por esses pensamentos que rabisquei uma folha com algumas palavras e depois de pronta preguei no mural que havia no quarto. Meus pensamentos em forma de frases me renderam um abraço direito.

O domingo teve fim horas mais tarde, quando lá pelas 23:00 p.m. depois de um banho demorado, e altamente relaxante, apaguei na cama do hotel esperando pelo dia seguinte.