Archive for the ‘Livro’ Category

O apanhador no campo de centeio

Outubro 30, 2010

  ”          – Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir ou sentir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuraram alguma coisa que seu próprio meio não lhes podia proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não lhes poderia proporcionar. Por isso, abandonam a busca antes mesmo de começá-la de verdade. Tá me entendendo?

            – Sim, senhor.

            – Está mesmo?

            – Estou sim.

            Levantou-se e despejou mais um pouco de bebida no copo. Aí se levantou de novo. Ficou um bocado de tempo sem dizer nada.

            – Não quero te assustar – ele disse – mas vejo você, com toda a clareza, morrendo nobremente, de uma forma ou de outra por uma causa qualquer absolutamente indigna.

            Me olhou de um jeito engraçado.

            – Se eu escrever umas palavras para você, promete que vai ler cuidadosamente? E guardar?

            – Prometo, sim – respondi. E era verdade. Até hoje guardo o papel que ele me deu.

            Foi até a escrivaninha, no outro lado da sala, e escreveu alguma coisa num pedaço de papel, sem se sentar. Aí voltou e se sentou, com o papel na mão.

            – Por estranho que pareça, isso não foi escrito pó um poeta. Foi escrito por um psicanalista chamado Wilhelm Stekel. Aqui está o que ele… Você ainda está me ouvindo?

            – Claro que estou.

            – Aqui está o que ele disse: “A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa”.

            Inclinou-se e me passou o pedaço de papel. Li imediatamente o que estava escrito, agradeci e tudo, e guardei o papel no bolso.”

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Mãe ou não mãe

Junho 15, 2010

“Desde que escrevi pela última vez, andei revirando meu sótão mental a ver se encontrava minhas ressalvas originais à maternidade. Lembro-me, sim, de uma montoeira de medos, todos do tipo errado. Caso eu tivesse enumerado as desvantagens da procriação, ”filho pode acabar sendo assassino”  jamais teria aparecido na lista. Na verdade, ela teria sido algo mais ou menos assim:

1. Pentelhação.

2. Menos tempo só para nós dois. (Que tal nenhum tempo só para nós dois?)

3. Os outros. (Reunião de Pais e Mestres. Professores de balé. Os amigos insuportáveis das crianças e seus insuportáveis pais.)

4. Virar uma vaca gorda.

5.  Altruísmo artificial: ser forçada a tomar decisões segundo o que é melhor para uma outra pessoa.

6. Redução das minhas viagens.

7. Tédio enlouquecedor. (Eu achava que criança pequena era uma chatisse inominável.)

8. Vida social imprestável. (Nunca consegui ter uma conversa decente na presença de crianças de cinco anos na sala.)

9. Rebaixamento social. (Eu era uma empresária respeitada. Assim que aparecesse com uma criança a tiracolo, deixariam de me levar tão a sério.)

10. Arcar com as consequências. (Procriar é saldar uma dívida. Mas quem quer saldar uma dívida da qual se pode escapar? Tudo indica que as mulheres sem filhos escapam impune e furtivamente. Além do mais, de que adianta pagar uma dívida para o credor errado? Só a mais desalmada das mães poderia se sentir recompensada da trabalheira ao ver a própria filha levando finalmente uma vida tão horrenda quanto a sua.)

Obviamente os motivos para continuar estéril eram todos incômodos tolos, sacrifícios insignificantes. Eram razões egoístas, maldosas e mesquinhas, de sorte que qualquer mulher que compilasse uma tal lista e optasse por manter sua vidinha arrumada, sufocante, estática, ressequida, sem saída e sem família era não apenas míope como também pavorosa. (…)”

página 38 e 39

“Portanto, meu receio não era apenas de virar mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionária que fornece a plataforma para a decolagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta – desmazelada, meio gorda – que acena adeuses e manda beijos enquanto uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com o babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído. Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada. (…)

Franklin, eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho. Antes de engravidar, minha visão do que significava criar uma criança – ler histórias sobre trens e casinhas com um sorriso no rosto, hora de dormir, enfiar papinha em bocas escancaradas – parecia ser a de outra pessoa. Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com o meu próprio egoísmo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o ”virar da página”, sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia. E creio que foi esse o terror que talvez tenha me atraído, da mesma  forma como um parapeito nos tenta a dar o salto. A intransponibilidade da tarefa, sua falta absoluta de atrativos, foi o que, no fim, me seduziu.”

página 45

Trechos retirados do livro Precisamos Falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver.

Criança 44

Abril 20, 2010

“Quando o medo silencia uma nação, alguém precisa falar a verdade.”

Hoje, depois de uma semana, terminei de ler Criança 44. Gostei muito portanto resolvi compartilhar e deixar ele aqui como uma indicação pra quem gosta de uma boa leitura.

Trata-se de um romance histórico de 428 páginas bem escritas. É ambientado na Rússia de Stalin, pós segunda guerra mundial. Mostra com fidelidade como era o regime comunista, o modo com que as pessoas eram tratadas, o medo que tomava conta da população devido as injustiças cometidas por parte do regime, ninguém estava a salvo – É melhor castigar dez inocentes do que deixar um culpado escapar. Ninguém era confiável, aos olhos do governo qualquer um poderia ser um anti-stalinista, ou um espião. Confie, mas confira. Devemos desconfiar de quem confiamos.

É nesse clima que se desenrola a trama central. Um militar, Liev, segue a risca e acredita cegamente que os métodos usados pelo governo – tortura, perseguição, morte de inocentes, abafamento de crimes – são necessários para manter o regime e o país fortes. Liev é um militar respeitado, mas a carreira dele entra em risco quando seus superiores pedem que ele acuse a mulher de ser espiã, isso dá uma guinada na vida do militar e no livro, que fica mais excitante e viciante. Até crianças serão mortas em série e terão seus estômagos retirados. Espera, tem um serial killer perdido nessa estória?

Paro por aqui, me contendo pra não contar a história já que não sei fazer resumos haha. Recomendo essa leitura ágil, cheia de suspense e ação, que por vezes me deixou boquiaberta e surpresa exclamando “Como assimmmm, não acredito!!!” Boa leitura, espero que gostem tanto quanto eu.

”Não é assim que começa? Você acredita numa causa, acha que vale a pena morrer por ela. Dali a pouco vale a pena matar por ela. Depois, vale a pena matar inocentes por ela.”