Mãe ou não mãe

“Desde que escrevi pela última vez, andei revirando meu sótão mental a ver se encontrava minhas ressalvas originais à maternidade. Lembro-me, sim, de uma montoeira de medos, todos do tipo errado. Caso eu tivesse enumerado as desvantagens da procriação, ”filho pode acabar sendo assassino”  jamais teria aparecido na lista. Na verdade, ela teria sido algo mais ou menos assim:

1. Pentelhação.

2. Menos tempo só para nós dois. (Que tal nenhum tempo só para nós dois?)

3. Os outros. (Reunião de Pais e Mestres. Professores de balé. Os amigos insuportáveis das crianças e seus insuportáveis pais.)

4. Virar uma vaca gorda.

5.  Altruísmo artificial: ser forçada a tomar decisões segundo o que é melhor para uma outra pessoa.

6. Redução das minhas viagens.

7. Tédio enlouquecedor. (Eu achava que criança pequena era uma chatisse inominável.)

8. Vida social imprestável. (Nunca consegui ter uma conversa decente na presença de crianças de cinco anos na sala.)

9. Rebaixamento social. (Eu era uma empresária respeitada. Assim que aparecesse com uma criança a tiracolo, deixariam de me levar tão a sério.)

10. Arcar com as consequências. (Procriar é saldar uma dívida. Mas quem quer saldar uma dívida da qual se pode escapar? Tudo indica que as mulheres sem filhos escapam impune e furtivamente. Além do mais, de que adianta pagar uma dívida para o credor errado? Só a mais desalmada das mães poderia se sentir recompensada da trabalheira ao ver a própria filha levando finalmente uma vida tão horrenda quanto a sua.)

Obviamente os motivos para continuar estéril eram todos incômodos tolos, sacrifícios insignificantes. Eram razões egoístas, maldosas e mesquinhas, de sorte que qualquer mulher que compilasse uma tal lista e optasse por manter sua vidinha arrumada, sufocante, estática, ressequida, sem saída e sem família era não apenas míope como também pavorosa. (…)”

página 38 e 39

“Portanto, meu receio não era apenas de virar mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionária que fornece a plataforma para a decolagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta – desmazelada, meio gorda – que acena adeuses e manda beijos enquanto uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com o babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído. Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada. (…)

Franklin, eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho. Antes de engravidar, minha visão do que significava criar uma criança – ler histórias sobre trens e casinhas com um sorriso no rosto, hora de dormir, enfiar papinha em bocas escancaradas – parecia ser a de outra pessoa. Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com o meu próprio egoísmo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o ”virar da página”, sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia. E creio que foi esse o terror que talvez tenha me atraído, da mesma  forma como um parapeito nos tenta a dar o salto. A intransponibilidade da tarefa, sua falta absoluta de atrativos, foi o que, no fim, me seduziu.”

página 45

Trechos retirados do livro Precisamos Falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver.

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